quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quanto devo aprimorar-me?

Não tenho por hábito publicar a correspondência que remeto, senão excertos acerca daquilo que me endereçam — em sua maioria por e-mail. Neste caso abro uma exceção; a angústia que me porta pode servir de algo ao leitor. Assim, afim de contextualização, esta mensagem é a terceira de uma sequência cuja finalidade era a busca de uma resposta para uma miríade de questões que sintetizo aqui através desta única sentença: Quanto devo aprimorar-me?

A mensagem inaugural estendia-se por mais de duas páginas. A resposta que recebi foi sintética:

Basta-te o suficiente.

Um abraço do teu amigo, Abel.

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Prezado,

Comecei a redação deste texto com uma enorme frustração. Escapava-me qualquer vulto da compreensão de teu intento e eu só o podia conceber como uma imensa indiferença — para não dizer como uma piada — quanto à minha angústia. Não entendo como se pode condensar tantas questões em uma única resposta e, por te conhecer... não sei; esperava mais. Redigi algumas páginas e, quando realizei-me irritado, só fiz abandonar minha mesa e tomar um bom chimarrão ao abrigo do sol e do vento. Decidi ponderar tua resposta e dirigir-te uma mensagem própria.

Creio que eu estava cego ao não notar que respondeste àquilo que se recolhia em meu esforço, a saber, a angústia. Porém, identificando isto, poderia eu dar-me por satisfeito com tua resposta? Nem um pouco.

Concentrei-me, então, na pergunta pela propriedade da angústia. Neste ponto, fiquei um pouco indeciso e confuso, já que não enxergava um fio condutor que me capacitasse a aceder à resposta. Optei, assim, por deixar falar tua frase e perscrutá-la. Confesso que ela ribombou aos meus ouvidos, mas seu apelo tão gritante ainda era surdo. Ou, melhor: eu estava surdo ao apelo.

Primeiro, entendi que a mensagem fora endereçada a mim, e a mim exclusivamente. "Basta-te", eu lia. Porém, falava-me mais aquele que, creio, é o termo chave de teu dizer: o suficiente. Com meu chimarrão, conjeturei longas horas sobre isto sem chegar a qualquer conclusão. O que é o suficiente? Percebi então que tratava com um termo simultaneamente determinado e indeterminado. Esta indeterminação, por sua vez, reduplicava-se em como o suficiente permanecia indeterminado para mim e também em como sua própria falta de determinação articulava-se na frase. Poderia, assim, considerar que somente o suficiente, se isolado, constituiria a resposta que me endereçaste, sendo os demais termos supérfluos? Isto passou-me pelo pensamento.

Porém, notando que o suficiente vigorava não determinado, ocorreu-me que talvez eu devesse perguntá-lo fora de tua frase. Isso, creio, era um sinal precedente de que aquela mensagem endereçava-se a mim e que somente eu poderia responder ao seu apelo. Porém, o que me convocava? A angústia — e isto fizeste bem em apontar. Antes de meus questionamentos, era a angústia que me convocava e somente eu, nesta condição, poderia recolher-me a este apelo. Porém, ainda não sabia em que medida isso se relacionava a o suficiente. Recorri a um dicionário e chamou-me a atenção a seguinte acepção: Tanto quanto necessário; bastante.

Quanto devo aprimorar-me? Baste-te bastante. Diz-se, contudo, no senso comum, bastante como diz-se muito. Deveria aprimorar-me muito, sendo muito aqui equiparado ao necessário encontrado no dicionário? Quanto devo aprimorar-me? Basta-te muito, o necessário. Era essa tua resposta? Mantive esta possibilidade suspensa e deixei que minha própria incerteza articulasse uma nova exegese.

Sendo assim, minha reação mais imediata foi a intuição da circularidade da frase. Ou de sua pretensa redundância: basta-te, bastante. Ora, a qualquer um parece óbvio que basta o bastante. Nisso, senti teu riso silencioso na errância de meu pensamento. Talvez fosse um sinal de que eu não poderia analisar a frase — conforme se pode entender análise pela diferenciação de seus termos — sem dissolver aquilo que ela mesmo encobria e desencobria. Na análise eu perderia a síntese e a síntese parecia-me inacessível sem a análise. Fiei-me na circularidade para poder continuar a conjeturar.

O suficiente, porém, continuava não ouvido em sua originariedade e consequentemente continuava pungente em meu questionar. O que se evidenciava nesta reunião e nesta diferenciação entre o suficiente e o bastante? Bastante dizia até bastar. Bastar, por sua vez, reencontrava o suficiente, mas com o apêndice não ser preciso mais do que; satisfazer. Assim, "Basta-te o suficiente" diz "Basta-te a satisfação" e "Basta-te bastar-te"? Era isso? Eu deveria aprimorar-me até me satisfazer? Embora fosse uma possível resposta, dei por certo que não, pois isso seria o equivalente a devolveres minha pergunta como quem diz: eu não tenho a resposta, ela deve estar em ti e, se pretendeste dizer isso, creio que terias sido muito mais direto e incisivo.

Até bastar deixa ver uma medida que o suficiente oculta parcialmente, mas que grita devido à presença do até. Que então me diz este suficiente, uma vez que jaz não determinado na frase? Diz: a medida com que me meço, basta-te a medida com que te medes, a medida com que te medes te basta.

Fica claro para mim, então, que a circularidade da frase não iguala os termos e não diz "Basta-te o bastante", como intui no início. A frase, do contrário, ela grita: "Basta-te!", como quem grita: "Mede-te"! no sentido de "Toma a tua medida!", "Assume-te!" ou "Escuta-te!" O recurso à circularidade, por sua vez, diz: "Mede-te! Faz de ti a tua medida, pois é esta medida que te mede!"

Assim, entendo que tua resposta é um apelo a mim mesmo ante minha angústia e, com isso, a asserção de que, antes de ser eu a por minha própria medida — o que difere completamente de encontrar minha própria medida; eu só posso ser através dessa mesma medida. Mas, até onde posso por esta medida ou, melhor, o que me diz esta mesma medida? Diz "basta-te (a simplicidade do) suficiente", diz "Seja a tua medida, à medida do su-ficiente, não te percas." É até aí que devo me aprimorar, agora vejo.

Muito obrigado.


Teu amigo,
Guilherme