segunda-feira, 14 de março de 2011

O último amanhecer

Éramos só dois caras sentados em um bar à beira-mar, sem nada no mundo que não as cervejas em nossas mãos e o frio do amanhecer — não tínhamos sequer uma conversa rolando; apenas entornávamos as garrafas e trocávamos um olhar que não dizia nada senão "é isso aí, meu velho. Somos uns fodidos." Olhei de volta ao bar sobre meu ombro; o relógio pendurado na parede marcava 6 horas e 15 minutos. Não sabia muito bem o que aquilo queria dizer, mas me senti satisfeito com o horário. Sinalizei ao dono do bar para que nos trouxesse mais duas cervejas e, em seguida, voltei a me espraiar na cadeira.

Quando chegou, o dono do bar suspendeu nosso silêncio e trocou-o por aquele da espera. Um pouco incomodado, tateei os bolsos à procura de uns trocados, somente para descobrir que eu estava quebrado pela noite. Sinalizei para que sentasse e empurrei-lhe a cerveja que me destinara segundos atrás. Minha intenção não era nobre, mas muito menos dissimulada; retribuiu meu gesto com um sorriso desconcertado. Ele havia sacado tudo sem sequer uma palavra — era o sinal de que estava qualificado para sentar conosco. Éramos três caras agora, três caras e quatro garrafas, duas cheias e duas vazias, e o desequilíbrio era tão assombroso que as palavras se fizeram necessárias.

— Verão de 2007. Minhas melhores lembranças — ergueu a cerveja, como se propondo um brinde e uma cadeia de respostas.

— Verão de 2009.

— Esse verão — levantei uma garrafa vazia.

— Sério?

— Por que não seria?! Senhores, dêem uma rápida olhada nesse amanhecer e um gole nessas cervejas que vocês tão segurando. Tá certo, confesso: não tenho um real no bolso, mas essa lembrança, esse momento, vai manchar tudo aquilo que eu já vivi e tudo aquilo que, acho eu, ainda vou viver. Meus amigos, esse amanhecer e essa cerveja acabam de dividir não só a vida de vocês, mas também o tempo. Daqui pra frente há uma linha temporal que vai para o futuro e outra que vai para o passado, como se tudo partisse desse único momento. Todas nossas lembranças passadas e todas nossas experiências futuras serão marcadas por esse pequeno momento que estamos vivendo aqui. Não haverá verões a serem relembrados que não passarão pelo filtro desses instantes. De outra maneira, também jamais poderemos escapar desses poucos segundos em tudo aquilo que vamos viver a seguir.

— Na boa, não dá pra reclamar de nada senão de o nosso amigo aqui ser um péssimo anfitrião e não alcançar outra cerveja.

— É da casa essa, então.

Levantou-se para apanhar outra longneck e alcançar-me.

— Um brinde ao nosso últimos amanhecer.

— Ou ao primeiro.

— Daonde saem loucos como vocês?

— Hahaha, é isso aí. Acho que somos loucos.

— Tu liga?

— Eu não, e tu?

— Nem um pouco.

— Pode ser ruim para os negócios.

— Pode.

— Tu tem um bar à beira-mar. Se estender um colchão aqui e terminar esse estoque de cerveja já é bom negócio.

— É.

— É.

— Mas de onde vocês vem?

— Florianópolis.

— Eu venho desse momento.

(Silêncio)

— Sério, porra!

— Pega a cerveja desse viado!

— Hahahaha!

— Hahahahaha!