sábado, 12 de novembro de 2011
Sonhos e garrafas vazias
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Finados
sábado, 24 de setembro de 2011
A noite e só
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Quanto devo aprimorar-me?
A mensagem inaugural estendia-se por mais de duas páginas. A resposta que recebi foi sintética:
Basta-te o suficiente.
Um abraço do teu amigo, Abel.
Prezado,
Comecei a redação deste texto com uma enorme frustração. Escapava-me qualquer vulto da compreensão de teu intento e eu só o podia conceber como uma imensa indiferença — para não dizer como uma piada — quanto à minha angústia. Não entendo como se pode condensar tantas questões em uma única resposta e, por te conhecer... não sei; esperava mais. Redigi algumas páginas e, quando realizei-me irritado, só fiz abandonar minha mesa e tomar um bom chimarrão ao abrigo do sol e do vento. Decidi ponderar tua resposta e dirigir-te uma mensagem própria.
Creio que eu estava cego ao não notar que respondeste àquilo que se recolhia em meu esforço, a saber, a angústia. Porém, identificando isto, poderia eu dar-me por satisfeito com tua resposta? Nem um pouco.
Concentrei-me, então, na pergunta pela propriedade da angústia. Neste ponto, fiquei um pouco indeciso e confuso, já que não enxergava um fio condutor que me capacitasse a aceder à resposta. Optei, assim, por deixar falar tua frase e perscrutá-la. Confesso que ela ribombou aos meus ouvidos, mas seu apelo tão gritante ainda era surdo. Ou, melhor: eu estava surdo ao apelo.
Primeiro, entendi que a mensagem fora endereçada a mim, e a mim exclusivamente. "Basta-te", eu lia. Porém, falava-me mais aquele que, creio, é o termo chave de teu dizer: o suficiente. Com meu chimarrão, conjeturei longas horas sobre isto sem chegar a qualquer conclusão. O que é o suficiente? Percebi então que tratava com um termo simultaneamente determinado e indeterminado. Esta indeterminação, por sua vez, reduplicava-se em como o suficiente permanecia indeterminado para mim e também em como sua própria falta de determinação articulava-se na frase. Poderia, assim, considerar que somente o suficiente, se isolado, constituiria a resposta que me endereçaste, sendo os demais termos supérfluos? Isto passou-me pelo pensamento.
Porém, notando que o suficiente vigorava não determinado, ocorreu-me que talvez eu devesse perguntá-lo fora de tua frase. Isso, creio, era um sinal precedente de que aquela mensagem endereçava-se a mim e que somente eu poderia responder ao seu apelo. Porém, o que me convocava? A angústia — e isto fizeste bem em apontar. Antes de meus questionamentos, era a angústia que me convocava e somente eu, nesta condição, poderia recolher-me a este apelo. Porém, ainda não sabia em que medida isso se relacionava a o suficiente. Recorri a um dicionário e chamou-me a atenção a seguinte acepção: Tanto quanto necessário; bastante.
Quanto devo aprimorar-me? Baste-te bastante. Diz-se, contudo, no senso comum, bastante como diz-se muito. Deveria aprimorar-me muito, sendo muito aqui equiparado ao necessário encontrado no dicionário? Quanto devo aprimorar-me? Basta-te muito, o necessário. Era essa tua resposta? Mantive esta possibilidade suspensa e deixei que minha própria incerteza articulasse uma nova exegese.
Sendo assim, minha reação mais imediata foi a intuição da circularidade da frase. Ou de sua pretensa redundância: basta-te, bastante. Ora, a qualquer um parece óbvio que basta o bastante. Nisso, senti teu riso silencioso na errância de meu pensamento. Talvez fosse um sinal de que eu não poderia analisar a frase — conforme se pode entender análise pela diferenciação de seus termos — sem dissolver aquilo que ela mesmo encobria e desencobria. Na análise eu perderia a síntese e a síntese parecia-me inacessível sem a análise. Fiei-me na circularidade para poder continuar a conjeturar.
O suficiente, porém, continuava não ouvido em sua originariedade e consequentemente continuava pungente em meu questionar. O que se evidenciava nesta reunião e nesta diferenciação entre o suficiente e o bastante? Bastante dizia até bastar. Bastar, por sua vez, reencontrava o suficiente, mas com o apêndice não ser preciso mais do que; satisfazer. Assim, "Basta-te o suficiente" diz "Basta-te a satisfação" e "Basta-te bastar-te"? Era isso? Eu deveria aprimorar-me até me satisfazer? Embora fosse uma possível resposta, dei por certo que não, pois isso seria o equivalente a devolveres minha pergunta como quem diz: eu não tenho a resposta, ela deve estar em ti e, se pretendeste dizer isso, creio que terias sido muito mais direto e incisivo.
Até bastar deixa ver uma medida que o suficiente oculta parcialmente, mas que grita devido à presença do até. Que então me diz este suficiente, uma vez que jaz não determinado na frase? Diz: a medida com que me meço, basta-te a medida com que te medes, a medida com que te medes te basta.
Fica claro para mim, então, que a circularidade da frase não iguala os termos e não diz "Basta-te o bastante", como intui no início. A frase, do contrário, ela grita: "Basta-te!", como quem grita: "Mede-te"! no sentido de "Toma a tua medida!", "Assume-te!" ou "Escuta-te!" O recurso à circularidade, por sua vez, diz: "Mede-te! Faz de ti a tua medida, pois é esta medida que te mede!"
Assim, entendo que tua resposta é um apelo a mim mesmo ante minha angústia e, com isso, a asserção de que, antes de ser eu a por minha própria medida — o que difere completamente de encontrar minha própria medida; eu só posso ser através dessa mesma medida. Mas, até onde posso por esta medida ou, melhor, o que me diz esta mesma medida? Diz "basta-te (a simplicidade do) suficiente", diz "Seja a tua medida, à medida do su-ficiente, não te percas." É até aí que devo me aprimorar, agora vejo.
Muito obrigado.
Teu amigo,
Guilherme
segunda-feira, 14 de março de 2011
O último amanhecer
Éramos só dois caras sentados em um bar à beira-mar, sem nada no mundo que não as cervejas em nossas mãos e o frio do amanhecer — não tínhamos sequer uma conversa rolando; apenas entornávamos as garrafas e trocávamos um olhar que não dizia nada senão "é isso aí, meu velho. Somos uns fodidos." Olhei de volta ao bar sobre meu ombro; o relógio pendurado na parede marcava 6 horas e 15 minutos. Não sabia muito bem o que aquilo queria dizer, mas me senti satisfeito com o horário. Sinalizei ao dono do bar para que nos trouxesse mais duas cervejas e, em seguida, voltei a me espraiar na cadeira.
Quando chegou, o dono do bar suspendeu nosso silêncio e trocou-o por aquele da espera. Um pouco incomodado, tateei os bolsos à procura de uns trocados, somente para descobrir que eu estava quebrado pela noite. Sinalizei para que sentasse e empurrei-lhe a cerveja que me destinara segundos atrás. Minha intenção não era nobre, mas muito menos dissimulada; retribuiu meu gesto com um sorriso desconcertado. Ele havia sacado tudo sem sequer uma palavra — era o sinal de que estava qualificado para sentar conosco. Éramos três caras agora, três caras e quatro garrafas, duas cheias e duas vazias, e o desequilíbrio era tão assombroso que as palavras se fizeram necessárias.
— Verão de 2007. Minhas melhores lembranças — ergueu a cerveja, como se propondo um brinde e uma cadeia de respostas.
— Verão de 2009.
— Esse verão — levantei uma garrafa vazia.
— Sério?
— Por que não seria?! Senhores, dêem uma rápida olhada nesse amanhecer e um gole nessas cervejas que vocês tão segurando. Tá certo, confesso: não tenho um real no bolso, mas essa lembrança, esse momento, vai manchar tudo aquilo que eu já vivi e tudo aquilo que, acho eu, ainda vou viver. Meus amigos, esse amanhecer e essa cerveja acabam de dividir não só a vida de vocês, mas também o tempo. Daqui pra frente há uma linha temporal que vai para o futuro e outra que vai para o passado, como se tudo partisse desse único momento. Todas nossas lembranças passadas e todas nossas experiências futuras serão marcadas por esse pequeno momento que estamos vivendo aqui. Não haverá verões a serem relembrados que não passarão pelo filtro desses instantes. De outra maneira, também jamais poderemos escapar desses poucos segundos em tudo aquilo que vamos viver a seguir.
— Na boa, não dá pra reclamar de nada senão de o nosso amigo aqui ser um péssimo anfitrião e não alcançar outra cerveja.
— É da casa essa, então.
Levantou-se para apanhar outra longneck e alcançar-me.
— Um brinde ao nosso últimos amanhecer.
— Ou ao primeiro.
— Daonde saem loucos como vocês?
— Hahaha, é isso aí. Acho que somos loucos.
— Tu liga?
— Eu não, e tu?
— Nem um pouco.
— Pode ser ruim para os negócios.
— Pode.
— Tu tem um bar à beira-mar. Se estender um colchão aqui e terminar esse estoque de cerveja já é bom negócio.
— É.
— É.
— Mas de onde vocês vem?
— Florianópolis.
— Eu venho desse momento.
(Silêncio)
— Sério, porra!
— Pega a cerveja desse viado!
— Hahahaha!
— Hahahahaha!