sábado, 12 de novembro de 2011

Sonhos e garrafas vazias

Nós sentávamos e contávamos nossos sonhos. Era madrugada e enchíamos as garrafas vazias com promessas. Trazíamos na escuridão uma vida melhor, em suspiros e em silêncios no nosso calar. Onde vivíamos, nós silenciávamos, e tudo que dizíamos era justamente o que não podíamos ter: os sonhos e as promessas. Eram só promessas. Disso, contudo, não sabíamos. Não podíamos nem queríamos saber. Ainda assim, prometíamos e sonhávamos com o empenho de viver. Mas eram promessas, tudo que eram, e somente porquanto as dizíamos, sonhávamos e prometíamos. A vida não se faz de promessas e de sonhos. E isso aprendemos da maneira difícil, pois sempre que os alcançávamos precisávamos substituí-los. Como as garrafas. Tínhamos a noite, um vinho e um ao outro. Mas somente enquanto os tivéssemos todos. No brilho da claridade, na presença da embriaguez ou na míngua da sobriedade, não tínhamos nada. Toda noite era primeira noite — e também a última. De fato, não tínhamos nada, mas o nada nos servia. Brindávamos.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Finados

Não há passagem. Não, e isto é muito duro de se dizer, embora precise ser dito. Mas sabemos todos disso, não o sabemos? A notícia, do contrário, assemelha-se ao romper do sonho infantil do Papai Noel e, conquanto seja risível não o acreditar com justo embasamento na impossibilidade do fato de existir um senhor de dada idade em trajes vermelhos com um saco às costas, acreditamos os nossos mortos. Contudo, não se trata de verificar se o caso se dá ou não se dá, mas de dar ou não dar crédito ao que se quiser. Sim, sim, esta é uma perspectiva muito mais madura e podemos até mesmo trocar justamente alguns socos e ofensas sob amparo dos nossos finados. Estilo Cavaleiros do Zodíaco.

Não que não haja qualquer possibilidade de humor. Certamente há. Minha crença é apenas que tomamos as coisas de maneira invertida: são os mortos que riem de nós. Não somos, no fundo, todos risíveis? Acho, insensatamente, claro, que a definição animale ridiculus nos cai com muito mais propriedade do que animale rationale. Argumentariam, talvez, que esta definição fica suspensa à espera de alguém que possa aplicá-la e que não caracteriza, então, atributo do homem. Claro, ridiculus, em latim, diz: aquele que desperta o riso. O homem, tendo o riso, é aquele que sempre o convida sobre si mesmo. De modo que isto está provado — cientificamente! — por alguma universidade, não preciso perder meu tempo argumentando.

Que digo, então? Que somos todos uns estúpidos (do grego στυπερεσται, antes que me interpretem mal)*  — eu primeiro. Nossos mortos, nossas crenças, tudo derivado desta eterna impossibilidade de conhecimento e desta inamovível vontade de afixá-lo de qualquer maneira. Sim, estas últimas frases inclusas. Também nossos mortos, gostaríamos de retomá-los e afixá-los. Como se sabe, porém, onde a razão não chega, não sabemos se tem lugar o riso e, portanto, não podemos oferecê-lo a quem não o tem. Mas os mortos riem, sim, os mortos riem e fazem-no justamente no dia que lhe dedicamos, pois, de alguma maneira, não o conclamamos como aproximação dos finados, mas, na tentativa de esconjurar, mesmo que temporariamente, o riso, fazemo-lo para livrarmo-nos, nós mesmos, desta pesada definição humana que, como a falha no manuscrito, jamais se pode apagar: somos aqueles que jamais podem livrar-se do riso.

Assim, amigos, proponho o contrário: porque os mortos também riem, convoquemos nossos mortos na risada. Se se finaram, que esta definição seja sempre através do riso. Que a morte, portanto, não seja esta passagem inelutável à seriedade, mas que seja o ecoar contínuo e incansável da definição mais própria daqueles que, como dizemos, já se foram: sua capacidade inevitável de convocar o riso sobre si. Não os lembremos pelo império ou pela obra. Não, lembremo-lhes não através do animale rationale, do homem que se define através da razão, mas através do animale ridiculus, o homem que tem o riso e, sempre convocando este, sempre convoca também seus semelhantes. Não, não levemos este texto a sério. Celebremos.

* Esta palavra sequer existe, mas o resultado de seu emprego neste texto pode ser útil para provar, em ambos os lados, meu amigo, o quão ridículo somos.

sábado, 24 de setembro de 2011

A noite e só

Mais uma noite sentado na calçada, contando os carros e as estrelas, eu acho, brincando com uma longneck vazia que não quero esfacelar contra o chão. São engraçadas essas noites em que nos deparamos com mais nada, a não ser com a própria noite, e o nosso pensamento encontra-se aqui e se dá agora, como se tivéssemos levado a vida toda para perceber que estamos vivos. Nesse pequeno momento, nesses poucos segundos, aí a vida torna-se um problema. Não são as mulheres, não são os amigos, somos nós mesmos e o estranho fato de que estamos vivo — um estranho fato que espantosamente escapou-nos (e continua a escapar-nos) por tantos e tantos anos.

Li, certa vez, que a vida é um presente de grego. Sentado na calçada, sem cerveja alguma, eu concordo com isso. Aliás, creio que a própria questão aqui seja concordar e, num pensamento, pôr alguma coisa em que possamos agarrar nossa existência pelo resto da noite fria. O problema é, diferentemente da conhecida citação do Tupac de que virá um dia brilhante se passada a noite (If you can make through the night, there’s a brighter day), saber se a vida não é uma grande noite que passamos bêbados. Um pouco de álcool, alguns cigarros, romances exasperados e uma checklist de aventuras radicais a serem concluídas até a morte; matamos o que é da vida como o que é da vida. O que não vem dela, disso não sabemos nada. Exceto que haverá prostitutas lá, pois, todos sabem, há prostitutas em todos os cantos do mundo e, portanto, não deve ser difícil imaginar a sua pós-existência (ou sua não-existência) [algumas crenças radicais apregoadas nas ruas mais escuras suspeitam que o próprio Deus tenha encomendado algumas]. Mas, na atual situação, estou preocupado mais em não perder o fio de minhas contas do que manter um pensamento sob qualquer signo.

Sim, tudo é sobre esse grande querer. Como se pudéssemos deixar de querê-lo, o que quer que seja — e talvez o querer, enquanto determinação, seja a nossa própria possibilidade de afirmação. Falam os amigos: “Tu és pouco determinado.” No dialeto de onde cresci, isso significa não ter ambição. No meu idioleto significa: ser livre. Mas, tudo bem, assumo: esta liberdade está no limite da inexistência. Por outro lado, agrada-me saber que, enquanto não desejar uma puta, não serei determinado por ela e, assim, não me tornarei eu mesmo uma prostituta. É o que acontece, eu acho, com as cervejas, a ponto de nos tornarmos a própria cerveja e, se há uma situação em que a noite se torna um grande problema afora quando nos defrontamos com ela mesma, é quando nos defrontamos com a empreitada de encará-la com — como acusou-me uma velha senhora aqui na esquina — com o cu cheio de cachaça. Aí não há dia brilhante, não há Tupac, não há nada senão o resumo da vida na figura de um balde, que receberá tudo aquilo que conquistamos com o que é da vida — como se pudéssemos não o conquistar!

Dizem que no frontispício da lápide de Bukowski está escrito: “Não tente.” Acho que dizer isso não é senão aconselhar Deus, pois, no soprar com que passamos à existência, dar esse conselho já seria manifestar uma ironia vital. Porém, essa é somente a interpretação mais grosseira que um bêbado pode empreender neste momento. E, sinceramente, mais valeria um sixpack trincando do que uma fina resposta sobre nossa condição humana. Essa é a maravilha: é da vida tudo o que nos rouba sorrateiramente dela. Uma resposta esclarecedora seria deselegante — queremos a noite. Um suicídio, demasiado abrupto — queremos a poesia; e a vida é poesia: trazer o nada para o mais perto possível, mas sem arrancá-lo de sua quietude, até o ponto em que ele está pronto e nos estende a mão e, lhe devolvendo o mesmo sopro que nos insuflou a vida, saltamos. Brindemos a isso hoje, amigos.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Quanto devo aprimorar-me?

Não tenho por hábito publicar a correspondência que remeto, senão excertos acerca daquilo que me endereçam — em sua maioria por e-mail. Neste caso abro uma exceção; a angústia que me porta pode servir de algo ao leitor. Assim, afim de contextualização, esta mensagem é a terceira de uma sequência cuja finalidade era a busca de uma resposta para uma miríade de questões que sintetizo aqui através desta única sentença: Quanto devo aprimorar-me?

A mensagem inaugural estendia-se por mais de duas páginas. A resposta que recebi foi sintética:

Basta-te o suficiente.

Um abraço do teu amigo, Abel.

— 

Prezado,

Comecei a redação deste texto com uma enorme frustração. Escapava-me qualquer vulto da compreensão de teu intento e eu só o podia conceber como uma imensa indiferença — para não dizer como uma piada — quanto à minha angústia. Não entendo como se pode condensar tantas questões em uma única resposta e, por te conhecer... não sei; esperava mais. Redigi algumas páginas e, quando realizei-me irritado, só fiz abandonar minha mesa e tomar um bom chimarrão ao abrigo do sol e do vento. Decidi ponderar tua resposta e dirigir-te uma mensagem própria.

Creio que eu estava cego ao não notar que respondeste àquilo que se recolhia em meu esforço, a saber, a angústia. Porém, identificando isto, poderia eu dar-me por satisfeito com tua resposta? Nem um pouco.

Concentrei-me, então, na pergunta pela propriedade da angústia. Neste ponto, fiquei um pouco indeciso e confuso, já que não enxergava um fio condutor que me capacitasse a aceder à resposta. Optei, assim, por deixar falar tua frase e perscrutá-la. Confesso que ela ribombou aos meus ouvidos, mas seu apelo tão gritante ainda era surdo. Ou, melhor: eu estava surdo ao apelo.

Primeiro, entendi que a mensagem fora endereçada a mim, e a mim exclusivamente. "Basta-te", eu lia. Porém, falava-me mais aquele que, creio, é o termo chave de teu dizer: o suficiente. Com meu chimarrão, conjeturei longas horas sobre isto sem chegar a qualquer conclusão. O que é o suficiente? Percebi então que tratava com um termo simultaneamente determinado e indeterminado. Esta indeterminação, por sua vez, reduplicava-se em como o suficiente permanecia indeterminado para mim e também em como sua própria falta de determinação articulava-se na frase. Poderia, assim, considerar que somente o suficiente, se isolado, constituiria a resposta que me endereçaste, sendo os demais termos supérfluos? Isto passou-me pelo pensamento.

Porém, notando que o suficiente vigorava não determinado, ocorreu-me que talvez eu devesse perguntá-lo fora de tua frase. Isso, creio, era um sinal precedente de que aquela mensagem endereçava-se a mim e que somente eu poderia responder ao seu apelo. Porém, o que me convocava? A angústia — e isto fizeste bem em apontar. Antes de meus questionamentos, era a angústia que me convocava e somente eu, nesta condição, poderia recolher-me a este apelo. Porém, ainda não sabia em que medida isso se relacionava a o suficiente. Recorri a um dicionário e chamou-me a atenção a seguinte acepção: Tanto quanto necessário; bastante.

Quanto devo aprimorar-me? Baste-te bastante. Diz-se, contudo, no senso comum, bastante como diz-se muito. Deveria aprimorar-me muito, sendo muito aqui equiparado ao necessário encontrado no dicionário? Quanto devo aprimorar-me? Basta-te muito, o necessário. Era essa tua resposta? Mantive esta possibilidade suspensa e deixei que minha própria incerteza articulasse uma nova exegese.

Sendo assim, minha reação mais imediata foi a intuição da circularidade da frase. Ou de sua pretensa redundância: basta-te, bastante. Ora, a qualquer um parece óbvio que basta o bastante. Nisso, senti teu riso silencioso na errância de meu pensamento. Talvez fosse um sinal de que eu não poderia analisar a frase — conforme se pode entender análise pela diferenciação de seus termos — sem dissolver aquilo que ela mesmo encobria e desencobria. Na análise eu perderia a síntese e a síntese parecia-me inacessível sem a análise. Fiei-me na circularidade para poder continuar a conjeturar.

O suficiente, porém, continuava não ouvido em sua originariedade e consequentemente continuava pungente em meu questionar. O que se evidenciava nesta reunião e nesta diferenciação entre o suficiente e o bastante? Bastante dizia até bastar. Bastar, por sua vez, reencontrava o suficiente, mas com o apêndice não ser preciso mais do que; satisfazer. Assim, "Basta-te o suficiente" diz "Basta-te a satisfação" e "Basta-te bastar-te"? Era isso? Eu deveria aprimorar-me até me satisfazer? Embora fosse uma possível resposta, dei por certo que não, pois isso seria o equivalente a devolveres minha pergunta como quem diz: eu não tenho a resposta, ela deve estar em ti e, se pretendeste dizer isso, creio que terias sido muito mais direto e incisivo.

Até bastar deixa ver uma medida que o suficiente oculta parcialmente, mas que grita devido à presença do até. Que então me diz este suficiente, uma vez que jaz não determinado na frase? Diz: a medida com que me meço, basta-te a medida com que te medes, a medida com que te medes te basta.

Fica claro para mim, então, que a circularidade da frase não iguala os termos e não diz "Basta-te o bastante", como intui no início. A frase, do contrário, ela grita: "Basta-te!", como quem grita: "Mede-te"! no sentido de "Toma a tua medida!", "Assume-te!" ou "Escuta-te!" O recurso à circularidade, por sua vez, diz: "Mede-te! Faz de ti a tua medida, pois é esta medida que te mede!"

Assim, entendo que tua resposta é um apelo a mim mesmo ante minha angústia e, com isso, a asserção de que, antes de ser eu a por minha própria medida — o que difere completamente de encontrar minha própria medida; eu só posso ser através dessa mesma medida. Mas, até onde posso por esta medida ou, melhor, o que me diz esta mesma medida? Diz "basta-te (a simplicidade do) suficiente", diz "Seja a tua medida, à medida do su-ficiente, não te percas." É até aí que devo me aprimorar, agora vejo.

Muito obrigado.


Teu amigo,
Guilherme

segunda-feira, 14 de março de 2011

O último amanhecer

Éramos só dois caras sentados em um bar à beira-mar, sem nada no mundo que não as cervejas em nossas mãos e o frio do amanhecer — não tínhamos sequer uma conversa rolando; apenas entornávamos as garrafas e trocávamos um olhar que não dizia nada senão "é isso aí, meu velho. Somos uns fodidos." Olhei de volta ao bar sobre meu ombro; o relógio pendurado na parede marcava 6 horas e 15 minutos. Não sabia muito bem o que aquilo queria dizer, mas me senti satisfeito com o horário. Sinalizei ao dono do bar para que nos trouxesse mais duas cervejas e, em seguida, voltei a me espraiar na cadeira.

Quando chegou, o dono do bar suspendeu nosso silêncio e trocou-o por aquele da espera. Um pouco incomodado, tateei os bolsos à procura de uns trocados, somente para descobrir que eu estava quebrado pela noite. Sinalizei para que sentasse e empurrei-lhe a cerveja que me destinara segundos atrás. Minha intenção não era nobre, mas muito menos dissimulada; retribuiu meu gesto com um sorriso desconcertado. Ele havia sacado tudo sem sequer uma palavra — era o sinal de que estava qualificado para sentar conosco. Éramos três caras agora, três caras e quatro garrafas, duas cheias e duas vazias, e o desequilíbrio era tão assombroso que as palavras se fizeram necessárias.

— Verão de 2007. Minhas melhores lembranças — ergueu a cerveja, como se propondo um brinde e uma cadeia de respostas.

— Verão de 2009.

— Esse verão — levantei uma garrafa vazia.

— Sério?

— Por que não seria?! Senhores, dêem uma rápida olhada nesse amanhecer e um gole nessas cervejas que vocês tão segurando. Tá certo, confesso: não tenho um real no bolso, mas essa lembrança, esse momento, vai manchar tudo aquilo que eu já vivi e tudo aquilo que, acho eu, ainda vou viver. Meus amigos, esse amanhecer e essa cerveja acabam de dividir não só a vida de vocês, mas também o tempo. Daqui pra frente há uma linha temporal que vai para o futuro e outra que vai para o passado, como se tudo partisse desse único momento. Todas nossas lembranças passadas e todas nossas experiências futuras serão marcadas por esse pequeno momento que estamos vivendo aqui. Não haverá verões a serem relembrados que não passarão pelo filtro desses instantes. De outra maneira, também jamais poderemos escapar desses poucos segundos em tudo aquilo que vamos viver a seguir.

— Na boa, não dá pra reclamar de nada senão de o nosso amigo aqui ser um péssimo anfitrião e não alcançar outra cerveja.

— É da casa essa, então.

Levantou-se para apanhar outra longneck e alcançar-me.

— Um brinde ao nosso últimos amanhecer.

— Ou ao primeiro.

— Daonde saem loucos como vocês?

— Hahaha, é isso aí. Acho que somos loucos.

— Tu liga?

— Eu não, e tu?

— Nem um pouco.

— Pode ser ruim para os negócios.

— Pode.

— Tu tem um bar à beira-mar. Se estender um colchão aqui e terminar esse estoque de cerveja já é bom negócio.

— É.

— É.

— Mas de onde vocês vem?

— Florianópolis.

— Eu venho desse momento.

(Silêncio)

— Sério, porra!

— Pega a cerveja desse viado!

— Hahahaha!

— Hahahahaha!