quinta-feira, 29 de março de 2012

Dormimos sozinhos


Talvez nossos problemas nos cheguem em um suspiro naquelas noites recalcitrantes que insistem em nos abandonar à solidão de uma meia luz, seja no banco de trás de um carro desconhecido, na estrada, seja nos confins de um quarto escuro, o nosso ou o de uma outra pessoa que nos acompanha por estes longos instantes de brevidade. A unidade do problema, creio, não é a angústia, mas a inspiração e a expiração com que sequencialmente procuramos compreender este mundo que nos cerca e desejamos sua recíproca compreensão, apanhando nosso problema em seu colo até que adormeça.

Talvez a solidão mesma seja o problema, esta solidão teimosa que torna sempre a se manifestar, não importa o quão recorrentes sejam os bons momentos ou as amizades. Estaremos, no final das contas, invariavelmente sozinhos: seremos nós por nós mesmos, mal-adormecidos por camas velhas e a enfrentar um destino outra vez insípido. É noite, as luzes se apagam, o vento sopra, a chuva cai e lá estamos nós, mudos e demudados, observando a chama das velhas fotos coladas na parede que lentamente se esfuma, enquanto brota no quarto um negrume e  torna-se aconchegante o vazio frio da cidade. Não haverá bom livro, bom filme ou boa música, estarão ausentes os amigos e será a própria ideia de afeto tão incerta quanto o amanhecer — que, desejamos, nunca chegará. Estamos com nós mesmos, talvez bem onde não queremos estar.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Somos todos gênios

(ou Título alarmista com conteúdo irrelevante)

Quando a noite cai, somos todos o mesmo. Não se trata de um prófugo amálgama humano que, sem rumo, dissemina-se por todos os becos e ruas da cidade como ratos; não se tratam daqueles que transpuseram incólumes uma cultura altaneira e empáfia e empenham-se hoje em uma iconoclastia ácida e vingativa ou mesmo daqueles renegados e escarrados por esta cultura; não somos marginais, não somos remanescentes ou sequer resistentes. Configuramos, meus caros, uma branda e alva massa sita na desídia, a excrescência inócua do império humano, o câncer irrefreável da reciclagem e da transformação. Somos gênios e portadores da messiânica filosofia do porvir, herdeiros consanguíneos dos mestres e dos soberanos, atilados nas finas artes do diagnóstico e do prognóstico que atingem os píncaros da liberação e da neutralização nas mesas de algum bar, em algum reduto urbano que acomode nossas pernas frágeis e nosso corpo mórbido. Não somos? Não temos tudo, senão aquilo que nos falta? Ora, acusar-me-ão de afiançar uma proposição demasiado óbvia, mas não somos aqueles que carregam a cruz da ausência e da vontade em um mundo onde tudo já está feito? Acusar-me-ão de não o poder provar e estarão certos. Estamos, afinal, sempre certos: somos a sombra hipereducada de um projeto resplandecente de futuro; a semente do prodígio em uma incubadora full HD e, decerto, aprofundamo-nos em todas as teorias, desbravamos todos os continentes e imergimos nas obscuridades da consciência através de pacotes turísticos de primeira classe, esterilizamos a escória e empunhamos uma simbologia esvaída com aparato. Sim, meus senhores, somos os melhores e os bons pensadores, somos os designers do espaço e os engenheiros esclarecidos de uma opulenta maquinaria social — o termo deve ser utilizado — que nos retroalimenta e confere destino. Núncios do engajamento dissuadido e do majestoso pensamento radical, podemos flanar pelo mundo hoje sabendo que eles nos absorverá em mídia digital, com o devido espaço para anunciantes estrategicamente convocados de acordo com os interesses do público. Podemos ter a certeza hoje que a nossa voz será ouvida por aqueles interessados e que nossa mensagem encontrará ouvinte otimizado. Juntemo-nos hoje, meus amigos, pois juntos reconquistaremos o mundo detrás de uma tela de um palmo e compartilharemos nossas esperanças e desesperanças. Reunamo-nos, companheiros, não faltarão a cerveja e as boas ideias, o dinheiro entrará e a arte permeará as ruas, pois tudo no mundo confluirá com o gênio e com a boa vontade. Todos sabemos, somos bons. Nossos lugares estão guardados. Hoje, contudo, esperamos.