Talvez nossos problemas nos cheguem em um suspiro naquelas noites recalcitrantes que insistem em nos abandonar à solidão de uma meia luz, seja no banco de trás de um carro desconhecido, na estrada, seja nos confins de um quarto escuro, o nosso ou o de uma outra pessoa que nos acompanha por estes longos instantes de brevidade. A unidade do problema, creio, não é a angústia, mas a inspiração e a expiração com que sequencialmente procuramos compreender este mundo que nos cerca e desejamos sua recíproca compreensão, apanhando nosso problema em seu colo até que adormeça.
Talvez a solidão mesma seja o problema, esta solidão teimosa que torna sempre a se manifestar, não importa o quão recorrentes sejam os bons momentos ou as amizades. Estaremos, no final das contas, invariavelmente sozinhos: seremos nós por nós mesmos, mal-adormecidos por camas velhas e a enfrentar um destino outra vez insípido. É noite, as luzes se apagam, o vento sopra, a chuva cai e lá estamos nós, mudos e demudados, observando a chama das velhas fotos coladas na parede que lentamente se esfuma, enquanto brota no quarto um negrume e torna-se aconchegante o vazio frio da cidade. Não haverá bom livro, bom filme ou boa música, estarão ausentes os amigos e será a própria ideia de afeto tão incerta quanto o amanhecer — que, desejamos, nunca chegará. Estamos com nós mesmos, talvez bem onde não queremos estar.
Maravilha de texto !
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