sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O lugar dos fracos

Levantei cansado, percebi que estava muito velho, calcei minhas pantufas e sentei em frente à estufa. Fazia frio e fazia vento e fazia noite e o mundo lá fora era só o mundo lá fora. Só queria um copo de leite, um velho amor e um cachorro que falasse auauauau. Esfreguei minhas mãos uma conta a outra, aproximei-as do calor e, com os olhos fixos, pensei nada. Que maravilha. Eu nem me dava conta direito do que estava fazendo, mas ia inclinando o corpo para frente, menos para me aquecer do que para abraçar a estufinha e comprimir o espaço do meu mundo

Aí eu senti uma sensação estranha quando detive o olhar por alguns segundos nas paredes e na forma como elas se articulavam. Pensei no mundo lá fora e pensei no mundo aqui dentro e a minha casa me pareceu uma dimensão paralela e eu já não tinha vontade de sair e também não tinha o cachorro peludo e preguiçoso que eu queria, então decidi fazer um copo de leite quente com Mescau. E foi fazendo um copo de leite quente com Mescau que eu entendi o sentido da vida.

Norte. O sentido da vida era o norte, mas um pouco puxado para o Nordeste, porque aí ia ter gente que confundiria o Oeste com o Leste e acabaria na direção errada, mas na busca certa e essas pessoas eu admiraria porque foi assim que a minha mãe me educou e eu pensei nela e tive vontade de abraçá-la e aí me ocorreu que os cachorros nunca poderiam ter uma vida com sentido porque eles são cachorros e cachorros não conhecem os pontos cardeais. Aí eu pensei que eles são infelizes e que os pontos cardeais são só uma invenção do homem e que, por isso, tudo que dá sentido para a vida é inventado por ele, então a vida não teria nenhum sentido senão que nós criamos. Aí eu pensei mais ainda que o homem pode criar muitas coisas, mas o cachorro só pode fazer auauauau e que, então, esse seria o sentido da vida dele. Por isso, eu quis ser um cachorro, mas não podia porque já sou humano.

Isso me deixou muito triste e eu resolvi tomar um copo de leite. O leite estava bom.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Liberdade

Não há liberdade; nem guerra para se lutar. Sem heróis aqui. Liberdade, na noite, é um cigarro mal fumado e um gole de uísque bêbado. Escuridão. Sem olhos e sem julgamentos, da primeira tragada o último gole e obliteram-se os lamentos. Não há — não entendam, parem este segundo, fechem os olhos e deixem a sensação apoderar-se de vocês (como se vocês tivessem controle dela, seus cornos) — martírio nem glória na redenção que não se vê ou no cigarro que não se fuma.

Do último gole bêbado, o álcool que pulsa nas veias e a droga ligeira que a alma aspira. Tantos encantos nessa noite, ninguém me vê. A Deus, já não vale a pena me julgar. Um gole sofrido, corredio, queima a garganta e desliza pela alma. Se há um sorriso, tenha certeza: são só dentes. A alma está absorta em bebida barata, envenenada. Está ali o corpo, roto. Evidentemente bêbado, mas não dispensa uma boa briga.

Ei-lo depravado e corrompido. Tal é o prazer da noite funérea; destruição total da máquina divina. É minha vingança por Deus não descer para a luta. Arruíno sua criação. Solitário, não há erros, pois não há olhos. Não há metáforas: a ardência é ardência e o sofrimento, o sofrimento. Um gole solitário é um gole de verdade. Os outros são cerimoniais que levam à chupação de paus. Inevitavelmente.

O sexo mais apaixonado não é o da corroboração do afeto. É o pornô na madrugada.

terça-feira, 4 de maio de 2010

"Love Status Quo"

E mais uma vez ela retornou, pela mesma porta gasta que tantas vezes a vira partir para sempre. Num silêncio fúnebre, digno das mortalhas e das vergonhas mais ignóbeis que existem, ela caminhava até minha direção, num cortejo deplorável de suas últimas imoralidades.

Rangi os dentes, fechei a tez numa carranca óbvia de uma cólera visceral e deixei que o sangue borbulhasse sob minhas têmporas. Ao vê-la, debruçando-se aos meus joelhos e derramando as lágrimas ardidas e resignadas dos infiéis, cheguei ao limite de meu martírio. Cansei da condição cretina de amar aquela cadela.

Dei dessa vez, a mim mesmo, o veredicto: ou a matava cruelmente, ou então daria cabo a minha própria vida. Entrei num estado autômato, travando uma batalha árdua entre minha lucidez e meu desespero. Estava a ponto de engalfinhar seu pescoço, quando a vadia balbuciou um pedido de perdão num último resfôlego de lamuria. Parei, tentando não cessar minha fúria, mas já estava me corrompendo novamente aos seus encantos deslavados. Não consegui dizer nada, e entre lágrimas e fraquezas, nos beijamos com a volúpia e intensidade dos condenados à morte.

Uma hora depois, nossos corpos nus e cansados, de tanto amar, odiar e sofrer, figuravam mais uma cena lamentável de nossa desgraçada relação. Enquanto ela adormecia sobre meu peito, como um anjo caído, não tive coragem de sorrir aliviado. Atormentado, chegava mais uma vez à conclusão, de que quem não prestava ali, era eu.

E lá se foi mais um cigarro, mais uma noite e a certeza incomoda do amor sôfrego e contínuo. Ainda restava eu e ela, na inércia da vontade de despertar.

Noite

Este belo ente importado dos recônditos celestiais possui um acabamento em veludo negro com finas esmeraldas refulgentes que acentuam as luzes interiores do ser. No quarto, quando separado da luz, revela um ambiente intimista, ideal para reflexões. Em conjunto com luzes baixas na sala de estar, trama um clima romântico e sensual, combinando muito bem com sofás, poltronas macias e pouco ruidosas e música R&B ou jazz bebop. Para ocasiões festivas, o tecido macio e opaco condensa o campo de visão e suscita a sensação de proximidade entre os convidados. Seu traço mais marcante, porém, é a flexibilidade com que se adapta a qualquer ambiente. 

R$5500,00