sábado, 12 de novembro de 2011

Sonhos e garrafas vazias

Nós sentávamos e contávamos nossos sonhos. Era madrugada e enchíamos as garrafas vazias com promessas. Trazíamos na escuridão uma vida melhor, em suspiros e em silêncios no nosso calar. Onde vivíamos, nós silenciávamos, e tudo que dizíamos era justamente o que não podíamos ter: os sonhos e as promessas. Eram só promessas. Disso, contudo, não sabíamos. Não podíamos nem queríamos saber. Ainda assim, prometíamos e sonhávamos com o empenho de viver. Mas eram promessas, tudo que eram, e somente porquanto as dizíamos, sonhávamos e prometíamos. A vida não se faz de promessas e de sonhos. E isso aprendemos da maneira difícil, pois sempre que os alcançávamos precisávamos substituí-los. Como as garrafas. Tínhamos a noite, um vinho e um ao outro. Mas somente enquanto os tivéssemos todos. No brilho da claridade, na presença da embriaguez ou na míngua da sobriedade, não tínhamos nada. Toda noite era primeira noite — e também a última. De fato, não tínhamos nada, mas o nada nos servia. Brindávamos.

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