segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Quente calmaria de vida usada

Acordei em uma noite quente de um pesadelo frio. Não, não. A noite era, ela mesma, o pesadelo; não tão a noite, creio, mas o pouco que eu tinha para preenchê-la: um quarto imundo, latas de cerveja espalhadas pelo assoalho e um velho ventilador, tão enferrujado quanto eu, cujas articulações rangiam tanto quanto as minhas. A poucos passos da cama, a televisão improvisada sobre uma mesa improvisada, em posição de destaque no cômodo, dava-me a rir: o quartinho mirava-a do mesmo modo como eu tantas vezes mirara o quartinho ou mesmo a vida. A imobilidade do mobiliário, no entanto, não parecia sentir-se agredida pela leveza e pela luxúria das imagens; uma mulher desfilava em roupas de baixo negras e, enquanto deslizava suas pernas para meus olhos, um jazz suave (um jazz qualquer) preenchia o quarto, partindo das pequenas caixas acústicas do aparelho e arranhando as paredes. Uma poderosa voz masculina, daquelas que poderia despir uma mulher em seu entoar, recobria o jazz e anunciava as meias. Eu as compraria e, tenho certeza, o mobiliário hipnotizado também o faria. Se pudesse, rastejaria para mais perto daquelas pernas, as latas, a cama, mesmo o ventilador velho, ávido por mostrar o pouco de juventude que resguardara, ávido por descontar aquele tanto de juventude nas pernas bem escondidas por detrás daquelas meias. As lembranças, o mobiliário também as tinha e, talvez fosse minha presença ali, era impossível duvidar que a exata disposição das peças naquele quartinho não fosse uma chave para liberar um lugar recôndito na memória. Era o arranjo, eram as pernas e era o jazz de vitrola arranhada. O quarto todo — eu incluso, pois nada mais era senão elemento da configuração — era um imenso portal. Eu o atravessava sempre que dormia, mesmo que em sonhos, mas o atravessava. Não há de ser muito, mas, se o quarto falhasse em por-me a dormir, sei que a cerveja não me decepcionaria.

Como a televisão, eu observava a vida deslocar-se por minha janela. Eu conseguia visualizar um letreiro luminoso e esporadicamente apanhava alguma pessoa que se deslocava apressadamente por aquela ruela escura, possivelmente em busca de drogas ou sexo — provavelmente os dois. Aproximem-se, eu lhes dizia em pensamento, aproximem-se, minhas vistosas pernas envoltas em meias. Como o narrador, a noite as anunciava, as despia. Como o mobiliário, eu consentia com tudo, eu as compraria, eu me arrastaria para perto delas se pudesse. Era o meu resguardo juvenil que me impedia, eram as lembranças de infância — quiçá eu as tivesse bebido ou abandonado com alguma garota, estou convicto de que daria algum barato ou que serviria de presente ilustre; não! era minha humanidade e eu PRECISAVA preservá-la. Talvez ela mesma tenha-me convencido disso, de seu valor. Talvez ela mesmo tenha-me feito acreditar que eu era aquela pequena humanidade que, como o germe de uma criança porvindoura, estava sempre prestes a nascer. A presteza, no entanto, parecia-me com a morte — a iminência perpétua era sempre o pesadelo gélido de uma noite quente (como se a noite mesma o sonhasse! como se eu fosse sonhado!) Sim, sim, tão bem protegida esta humanidade que as pessoas não a reconheciam. Atirado naquela cama como a abnegação da dignidade, eu era o maior germe da inocência, o fulgor do dia. Por isso, eu precisava protegê-lo, precisava resguardá-lo imaculado e, para tal, eu bebia o que quer que fosse misturado com o que quer que fosse — a destruição era a garantia da salvaguarda! Apenas, como toda humanidade, eu era tarado por pernas e estava disposto a por tudo a perder — estou falando aqui de gerações! estou falando da humanidade em uma pequena cápsula! — por um par de pernas bem torneadas, acariciadas por longas meias escuras. Eu era a humanidade prestes a deitar-se com uma prostituta. Eu era a salvação.

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