Agrada-me partir na calada da madrugada enquanto o sol, na escuridão, ainda se avizinha. A névoa negra que paira sobre a estrada é atravessada por centenas de faróis lampejantes que, se não riscam o lugar ele mesmo, riscam a memória enquanto o dia, em crepúsculo, ensaia-se antes da alvorecer. Habituei-me nestas semanas a estar na estrada, normalmente em algum banco de ônibus, em conversa com alguém que me será sempre desconhecido, tanto no mormaço pesado da tarde quanto no frio silencioso da madrugada.
De onde vem e para onde vão todas estas pessoas? Não sei se está em questão a jornada — não, ao menos, como um suposto caminho vital de cada um que nos apanha os fragmentos; talvez como um jornar, um ter dia ou dar dia e, pensando assim, não posso deixar de considerar que estes desconhecidos, estes estranhos, estes outros, todos eles temos dia junto, adiamo-nos em um ônibus, em um carro, em um ano ainda um pouco enferrujado como se a vida, parece-me, nunca fosse aqui e nunca fosse agora, como se ela demandasse sempre um pouco mais de esforço, de empenho, de crença, de Deus. Mas, tudo bem, quando se pisa o chão batido na pressa de o dia não nascer, para trabalhar com uma muda de roupas e a recomendação da família, acho que não há problemas em acreditar um pouco em Deus.
Parece-me, conforme se completam estes 23 anos, que esta é a trilha do desaparecimento e que talvez eu esteja ficando velho para completá-la — já um pouco tarde demais para morrer cedo, um pouco amargurado com a tentativa de deixar de ser um menino para ser um homem, um longo e inútil processo de suposto amadurecimento de devoção. Sim, a vida há de recompensar-nos por adiarmo-nos na solidão: do alvorecer ao ocaso, como se as questões saíssem de lá — mesmo erradas, mesmo sem respostas — e como se pudéssemos tudo responder e encerrar com um pequeno emprego de sinceridade, como se, no final, apesar de toda compaixão e ternura, alguém fosse verdadeiramente segurar-nos a mão e acompanhar-nos. Não, restarão talvez nossas pegadas, as marcas e as sombras. Serão os vultos que darão prosseguimento. O buraco negro que nos permeia, este talvez devamos preencher com a pressão dos anos — é uma boa admoestação para suceder em não nos devorarmos, a nós mesmos ou uns aos outros. Isso ou inebriar-se de álcool, não de cores, amores e belos. Quando termina o dia, estamos sozinhos.
Assim, fazem-se vinte e três anos de um único dia que parece ter-se repetido sempre e sempre, o velho dia, com suas estradas, viagens, crepúsculos, sonhos, decepções, desejos e lágrimas. Um amigo me deseja: “Tens direito a mil e um pedidos, fá-los lentamente.” Peço, então, a compreensão. Eu a desejo para mim mesmo: não espero ser compreendido por amigos, conhecidos ou desconhecidos, mas desejo compreender-me neste vazio molenga, que não consegue por sua marca em nada, que quer como último desejo ser capaz de não desejar nada, de não ferir ninguém e de, neste longo e demorado dia, entardecer.
Guilherme
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