Éramos só dois caras sentados em um bar à beira-mar, sem nada no mundo que não as cervejas em nossas mãos e o frio do amanhecer — não tínhamos sequer uma conversa rolando; apenas entornávamos as garrafas e trocávamos um olhar que não dizia nada senão "é isso aí, meu velho. Somos uns fodidos." Olhei de volta ao bar sobre meu ombro; o relógio pendurado na parede marcava 6 horas e 15 minutos. Não sabia muito bem o que aquilo queria dizer, mas me senti satisfeito com o horário. Sinalizei ao dono do bar para que nos trouxesse mais duas cervejas e, em seguida, voltei a me espraiar na cadeira.
Quando chegou, o dono do bar suspendeu nosso silêncio e trocou-o por aquele da espera. Um pouco incomodado, tateei os bolsos à procura de uns trocados, somente para descobrir que eu estava quebrado pela noite. Sinalizei para que sentasse e empurrei-lhe a cerveja que me destinara segundos atrás. Minha intenção não era nobre, mas muito menos dissimulada; retribuiu meu gesto com um sorriso desconcertado. Ele havia sacado tudo sem sequer uma palavra — era o sinal de que estava qualificado para sentar conosco. Éramos três caras agora, três caras e quatro garrafas, duas cheias e duas vazias, e o desequilíbrio era tão assombroso que as palavras se fizeram necessárias.
— Verão de 2007. Minhas melhores lembranças — ergueu a cerveja, como se propondo um brinde e uma cadeia de respostas.
— Verão de 2009.
— Esse verão — levantei uma garrafa vazia.
— Sério?
— Por que não seria?! Senhores, dêem uma rápida olhada nesse amanhecer e um gole nessas cervejas que vocês tão segurando. Tá certo, confesso: não tenho um real no bolso, mas essa lembrança, esse momento, vai manchar tudo aquilo que eu já vivi e tudo aquilo que, acho eu, ainda vou viver. Meus amigos, esse amanhecer e essa cerveja acabam de dividir não só a vida de vocês, mas também o tempo. Daqui pra frente há uma linha temporal que vai para o futuro e outra que vai para o passado, como se tudo partisse desse único momento. Todas nossas lembranças passadas e todas nossas experiências futuras serão marcadas por esse pequeno momento que estamos vivendo aqui. Não haverá verões a serem relembrados que não passarão pelo filtro desses instantes. De outra maneira, também jamais poderemos escapar desses poucos segundos em tudo aquilo que vamos viver a seguir.
— Na boa, não dá pra reclamar de nada senão de o nosso amigo aqui ser um péssimo anfitrião e não alcançar outra cerveja.
— É da casa essa, então.
Levantou-se para apanhar outra longneck e alcançar-me.
— Um brinde ao nosso últimos amanhecer.
— Ou ao primeiro.
— Daonde saem loucos como vocês?
— Hahaha, é isso aí. Acho que somos loucos.
— Tu liga?
— Eu não, e tu?
— Nem um pouco.
— Pode ser ruim para os negócios.
— Pode.
— Tu tem um bar à beira-mar. Se estender um colchão aqui e terminar esse estoque de cerveja já é bom negócio.
— É.
— É.
— Mas de onde vocês vem?
— Florianópolis.
— Eu venho desse momento.
(Silêncio)
— Sério, porra!
— Pega a cerveja desse viado!
— Hahahaha!
— Hahahahaha!
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