Mais uma noite sentado na calçada, contando os carros e as estrelas, eu acho, brincando com uma longneck vazia que não quero esfacelar contra o chão. São engraçadas essas noites em que nos deparamos com mais nada, a não ser com a própria noite, e o nosso pensamento encontra-se aqui e se dá agora, como se tivéssemos levado a vida toda para perceber que estamos vivos. Nesse pequeno momento, nesses poucos segundos, aí a vida torna-se um problema. Não são as mulheres, não são os amigos, somos nós mesmos e o estranho fato de que estamos vivo — um estranho fato que espantosamente escapou-nos (e continua a escapar-nos) por tantos e tantos anos.
Li, certa vez, que a vida é um presente de grego. Sentado na calçada, sem cerveja alguma, eu concordo com isso. Aliás, creio que a própria questão aqui seja concordar e, num pensamento, pôr alguma coisa em que possamos agarrar nossa existência pelo resto da noite fria. O problema é, diferentemente da conhecida citação do Tupac de que virá um dia brilhante se passada a noite (If you can make through the night, there’s a brighter day), saber se a vida não é uma grande noite que passamos bêbados. Um pouco de álcool, alguns cigarros, romances exasperados e uma checklist de aventuras radicais a serem concluídas até a morte; matamos o que é da vida como o que é da vida. O que não vem dela, disso não sabemos nada. Exceto que haverá prostitutas lá, pois, todos sabem, há prostitutas em todos os cantos do mundo e, portanto, não deve ser difícil imaginar a sua pós-existência (ou sua não-existência) [algumas crenças radicais apregoadas nas ruas mais escuras suspeitam que o próprio Deus tenha encomendado algumas]. Mas, na atual situação, estou preocupado mais em não perder o fio de minhas contas do que manter um pensamento sob qualquer signo.
Sim, tudo é sobre esse grande querer. Como se pudéssemos deixar de querê-lo, o que quer que seja — e talvez o querer, enquanto determinação, seja a nossa própria possibilidade de afirmação. Falam os amigos: “Tu és pouco determinado.” No dialeto de onde cresci, isso significa não ter ambição. No meu idioleto significa: ser livre. Mas, tudo bem, assumo: esta liberdade está no limite da inexistência. Por outro lado, agrada-me saber que, enquanto não desejar uma puta, não serei determinado por ela e, assim, não me tornarei eu mesmo uma prostituta. É o que acontece, eu acho, com as cervejas, a ponto de nos tornarmos a própria cerveja e, se há uma situação em que a noite se torna um grande problema afora quando nos defrontamos com ela mesma, é quando nos defrontamos com a empreitada de encará-la com — como acusou-me uma velha senhora aqui na esquina — com o cu cheio de cachaça. Aí não há dia brilhante, não há Tupac, não há nada senão o resumo da vida na figura de um balde, que receberá tudo aquilo que conquistamos com o que é da vida — como se pudéssemos não o conquistar!
Dizem que no frontispício da lápide de Bukowski está escrito: “Não tente.” Acho que dizer isso não é senão aconselhar Deus, pois, no soprar com que passamos à existência, dar esse conselho já seria manifestar uma ironia vital. Porém, essa é somente a interpretação mais grosseira que um bêbado pode empreender neste momento. E, sinceramente, mais valeria um sixpack trincando do que uma fina resposta sobre nossa condição humana. Essa é a maravilha: é da vida tudo o que nos rouba sorrateiramente dela. Uma resposta esclarecedora seria deselegante — queremos a noite. Um suicídio, demasiado abrupto — queremos a poesia; e a vida é poesia: trazer o nada para o mais perto possível, mas sem arrancá-lo de sua quietude, até o ponto em que ele está pronto e nos estende a mão e, lhe devolvendo o mesmo sopro que nos insuflou a vida, saltamos. Brindemos a isso hoje, amigos.
Sensacional esse texto...leve, quase livre e quase solto !
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